Black Hole

Toda vez que vejo alguém falando em política em termos de esquerda e direita, me sinto como que um físico se sentiria no início do século XX antes da teoria geral da relatividade: você tem a mecânica de Newton que funciona muito bem e explica vários fenômenos do mundo físico, mas quando as massas crescem muito ou a velocidade se torna muito grande de repente você têm um modelo teórico que não consegue explicar mais esses fenômenos, ele sempre diverge da medição real.

No desespero, os físicos começaram a inventar todo tipo de baboseira sem qualquer respaldo matemático ou observacional, apelavam para um “éter” que jamais existiu tentando descobrir porque a Física Newtoniana que durante 200 anos explicava todos os fenômenos até então observados começava a falhar.

Aí veio Albert Einstein com sua teoria da relatividade geral e explodiu as cabeças de todos os físicos daquela época. Ele propôs um modelo teórico que não apenas explicava todos aqueles problemas sérios da gravidade e da cinética, como também demonstrava que a Física Newtoniana era apenas um caso particular do seu modelo. Ele quebrou um paradigma ao evoluir as bases do pensamento físico que orientava naquela época.

Hoje a teoria política ainda padece desse problema com a insistência de alguns pelo modelo monoaxial (um eixo) esquerda-direita. Ela sempre serviu para se explicar muitos fenômenos do mundo político, mas hoje no calor das produções de novas ideias, cada vez mais amplas e complexas, esse modelo está sofrendo sérios abalos, com alguns cientistas políticos tentando salvar o que já há vários anos têm falhado gravemente.

Não que houveram alguns avanços na área, pois de fato tiveram. Vejam o exemplo de David Nolan, que em 1969 quebrou o paradigma monoaxial e partiu para uma solução de dois eixos, é bem possível que você já tenha visto esse diagrama em um teste político no facebook:

Nolan Chart

Além do clássico eixo esquerda-direita, Nolan acrescenta um eixo vertical autoritarismo-libertarianismo, que permite definir melhor vários fenômenos políticos modernos como o Fascismo Italiano e o Socialismo Soviético que possuem muitos elementos em comum, contudo divergem em determinados pontos. Este diagrama não corresponde ao modelo original de Nolan, o qual definia uma porção central do gráfico, mas segue com bastante fidelidade à ideia do autor (esse se chama a Bússola Política).

Mas mesmo esse sistema apresenta alguns problemas, porque dependendo de como você classifica certos regimes no eixo esquerda-direita você acaba aproximando demais regimes que possuem diferenças substanciais. Só para citar um exemplo clássico: na visão de alguns conservadores o modelo nazista é considerado de esquerda, enquanto que os marxistas os colocam na direita e o eixo novo não ajuda em muito separar esses dois.

Dessa forma, o Friesian Institute adicionou um terceiro eixo à ideia de Nolan, que reflete a distribuição do poder num eixo monárquico-anárquico:

3 axis politics

Observem como, apesar de altamente complexo, você consegue observar com grande facilidade diferentes regimes políticos espalhados pelo mundo, por tratar o problema da classificação política com a devida complexidade. Não que este modelo seja perfeito, ele ainda padece dos mesmos problemas que o diagrama de Nolan quando o assunto é classificar no eixo esquerda-direita.

Independente desses dois exemplos, acredito que é preciso superar o paradigma da atual classificação política e para isso indico alguns meios da teoria de sistemas que definem os parâmetros básicos que hão de guiar seja lá quem for desenvolver uma nova teoria sistêmica de classificação política:

1. Um sistema deve possuir tantas dimensões (eixos) quanto mais complexo for o fenômeno político. Esse é um pré-requisito básico que qualquer físico, programador, matemático ou engenheiro aprende quando estuda as teorias que dão base para seus estudos, mas que por alguma razão muitos cientistas políticos ignoram tentando achar soluções simples para problemas complexos.

2. O sistema deve ser auto-evolutivo, ou seja, ter a capacidade de desenvolver a si mesmo de forma a abarcar cada vez mais as novas mudanças sociais, tecnológicas, econômicas, etc. Assim, toda vez que surgir uma novidade no mundo real o sistema já estará pronto para classifica-lo sem precisar criar aditivos.

3. Por fim um sistema deve pretender alcançar a universalidade dos fenômenos políticos, tal qual não crie pressupostos intrínsecos que limitem o sistema desde o seu início. Um sistema que não pretende à universalidade não é científico.

Já há alguns anos venho pensando nessa sistemática, mas é difícil chegar em conclusões que atendam aos 3 critérios simultaneamente. Mas creio que a solução inevitavelmente passa por 3 eixos, e que esses devem de alguma forma refletir os valores clássicos do iluminismo: Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Se tiverem sugestões, todas serão muito bem vindas!

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